Quase grito quando Kaique freia bruscamente fazendo quase C na frente da minha casa. Ele gira a chave, deixando-a em off. Desço da moto tirando o capacete o coloco-o no chão. Kaique me lança um meio sorriso e tira o capacete também.
-Da próxima vez que fazer isso termino com você!-Tento parecer zangada mas não consigo. Esse é o dom de Kaique sobre mim: nunca consigo brigar com ele. Júlia, minha única amiga, considera-nos o casal perfeito. Mas também como poderia ficar zangada com o único garoto que suporta meus desmaios estranhos sem me perguntar nada, ele pensa, como todos pensam, que minha pressão arterial é muito baixa, e que isso provoca esses desmaios repentinos.
Kaique tem os olhos castanhos mais bonitos que eu já vi, é um pouco bad boy mas no fundo é uma boa pessoa. Tem a mania, por mim considerada idiota, de ir á academia três vezes por semana, o que torna ele um dos garotos mais cobiçados da cidade. E ele ainda perde seu tempo comigo... Não entendo, nem nunca vou entender...
Ele me puxa e gruda seus olhos castanhos nos meus amarelos. Me puxa para um beijo rápido. Descansa a testa na minha e sussurra:
-Te amo...
-Também...-Respondo-Te amo muito...
-Annie!-Viro-me depressa e vejo minha mãe me gritando da janela_ Já pra dentro!
-Tô indo!-Grito de volta.-Você vem me pegar amanhã?-Pergunto a Kaique.
-Claro!-Me beija de novo. Entrego-lhe o capacete aconselhando-o a não correr.
-Te pego amanhã More!-Ele me chama de More desde que nos conhecemos, dois anos atrás. Liga a moto e vai embora. Entro em casa e subo direto pro quarto. Não tô afim de receber lição de moral da minha mãe.
-Pensei que você saía da escola meio dia- Não funcionou meu plano de entrar e me trancar no quarto-Onde você estava? São três e meia!
-Num velório-Falo subindo mais um degrau da escada.
-Porquê não me avisou? Você anda com esse celular pra cima e pra baixo, porquê não usa ele pra fazer algo de útil?
-Eu esqueci!-Estou começando a ficar irritada. Estou cansada, com fome, tenho que prender um homem que eu mal conheço e um teste de geografia pra amanhã- Você também não me esquece de avisar que não vai dormir em casa? Você não esqueceu de me contar quem é meu pai? Você não esqueceu do meu aniversário? Se eu for dizer tudo que você esqueceu não vamos terminar hoje! E eu preciso de um banho!
Não gosto de usar essas coisas pra desarmar minha mãe, mas às vezes ela me irrita muito e não consigo me conter. Agora vejo uma sombra de tristeza em seu rosto mas ela não demostra que se arrepende por tudo isso... Aliás acho mesmo que ela nunca se arrependeu por nada nessa vida.
-Precisa mesmo!- Ela diz autoritária- Está fedendo a gasolina! Não quero você com aquele garoto! Muito menos naquela maquina mortífera!
-A Gabrielly não é uma máquina mortífera!-Grito e subo as escadas correndo, enquanto ainda consigo segurar as lágrimas.
Me atiro embaixo do chuveiro e deixo a água quente lavar meu corpo e minha alma. Trinta minutos depois já estou sem fome, mais calma e com todos meus livros didáticos espalhados pela cama. Tentando assimilar as eras geológicas que nosso planeta teve. Depois de alguns minutos lendo desisto de estudar. Ai como queria ser apenas uma garota normal que tem como seu maior problema o teste do dia seguinte no primeiro período. Mas eu não sou, nem nunca vou ser normal. E meu maior problema não é o teste do dia seguinte e sim o caso de um irmão que matou o outro.
Depois de ter falado com Eleonore sabia que não ia conseguir percorrer quase quatro quilômetros a pé até minha casa e resolvi pedir carona a Kaique, que, como sempre, chegou em menos de 10 minutos e me trouxe pra casa.
Passo a mão em meu cabelo molhado. A margarida. Que pena que perdi... Era muito linda....
Tenho que fazer algo em relação á Léo. Mas como? Não posso simplesmente entrar na delegacia e dizer: ''Oi eu vim fazer uma denúncia. Eu sei que quem matou Eleonore foi seu irmão, Léo. Ah e foi um fantasma que me contou'' Se eu disser isso vou ter que fazer outra visita ao Dr. Otto, aquele homem barrigudo que fuma charutos e que era meu psiquiatra. E isso é a ultima coisa que eu quero fazer. Só de lembrar daqueles remédios cheirando a barata já tenho vontade de vomitar.
Tento me concentrar nas próximas trinta páginas que ainda tenho que ler. E, por algumas horas, esqueço que sou uma garota que vê fantasmas e me sinto normal. Apenas alguém que est´pa preocupada com o teste do dia seguinte.
Sei que devia estar em casa como prometi á minha mãe. Sei que não devia ter andado dois quilômetros de minha sala de aula até um velório. Sei que devia ter aceitado a carona que Kaique me ofereceu. Mas... pensando bem... o que eu devo fazer, estou fazendo. Se tenho esse maldito(ou bendito) dom é por um motivo: pessoas precisam de mim. Bem, pessoas não é exatamente o sujeito dessa oração, mas...
-Boa tarde- falo entrando por uma porta marrom e percebendo a ironia boa tarde, como se a tarde está boa para aquela família.
Me dirijo á Marta, uma mulher no no auge de seus 30 anos, a viúva. Duas crianças estão brincando ao seu lado, sem saber que seu pai está morto.
-Meus pêsames- Falo pegando as mãos de Marta- Ele era um homem bom
Marta está chorando silenciosamente, os olhos vermelhos, fixos no caixão à sua frente.-Marta se quiser que eu fique pra cuidar dos pequenos- Aponto para os dois garotinhos que acabaram de sair da sala rindo e correndo- Posso levá-los lá pra casa...
-Não será necessário-Olho na direção da porta e um homem muito parecido com Eleonore está recostado no batente, atrás dele uma garota da minha idade está segurando um dos gêmeos de Marta- Eu trouxe uma babá.
Marta se levanta depressa e joga os braços em volta do pescoço do homem, repetindo, quase pra si mesmo:
-Que bom que você veio Léo... Que bom que veio...
-Nunca deixaria minha cunhada preferida só num momento desses- Ele a afasta mas permanece com os braços sobre os ombros dela- Ele está lá em cima. Você sabe disso. Não se preocupe. Vai ficar tudo bem...
Achei que o irmão do morto deveria estar mais triste... Léo falava quase sem emoção... Mas Marta pareceu não perceber isto. Ela fungou e recostou a cabeça no peito dele. Por um milésimo de segundo vi naquela mulher de 30 anos uma adolescente.
Um vulto chamou minha atenção para a cozinha. Quando estava indo até lá um espectro me atravessou. O fantasma pálido e cinzento deslizou até Marta e Léo. Tentou puxar o braço de Marta várias vezes, mas sua mão passava por dentro do braço dela como se fosse água.
O espectro de Eleonore agarrara Léo pelo pescoço tentava, sem sucesso, esganá-lo. Frustado, desistiu e saiu passando por dentro de uma parede.
Eu observo tudo isso paralisada. Mas agora preciso encontrar aquele espectro. Toco nas costas de Marta e ela se vira. Lhe estendo os braços e ela me abraça com força.
-Preciso ir- Murmuro no seu ouvido- Como Léo disse, ele vai pro céu.
Pego minha mochila e saio o mais depressa possível. Procuro o fantasma pelo jardim repleto de pessoas vestidas em negro. Não o encontro em lugar nenhum... Peço licença às pessoas que encontro pelo caminho até me que consigo chegar na rua.
Olho pros lados e vejo Eleonore(ou o que restou dele) flutuando rapidamente em direção à um pequeno jardim de margaridas bem cuidadas. Consigo alcançá-lo quando ele para tentando colher uma das flores. Me aproximo devagar.
-Eleonore...-Falo baixinho, ele se vira e, mesmo pálido e cinzento, como se tivesse tomado um banho de cinzas, Eleonore ainda é bonito- Porque você queria estrangular seu irmão?
Ele levanta as mãos e recua. Uma margarida fica atravessada na altura de seu umbigo. Ele tenta tirá-la de lá com as mãos. Não conseguindo, flutua para o lado. Sempre achei esquisito o jeito como os fantasmas se locomovem... eles não andam com os pés no chão, apenas flutuam, como se a gravidade não existisse.
-Me diga, Eleonore-Insisto-Só me diga sim ou não. Foi Léo quem lhe matou?
-Sim...-Um múrmurio escapa dos lábios dele. Os espectros não conseguem formar frases completas com coerencia, não é nada do que vemos nos filmes. E isso dificulta um pouco minha missão de ajudá-los- Léo..
-Ele vai pagar. Te prometo.
-Prometer...- Murmura novamente o espectro com as feiçoes mais tranquilas agora.
-Prometo. Continue seu caminho Eleonore.
-O-obrigado- Ele tremula como uma cortina ao vento e começa a ficar transparente. Segundos depois estou sozinha no canteiro de margaridas.
Retiro uma delas e prendo atrás da orelha direita. Prefiro rosas, mas essas servem.