quarta-feira, 1 de maio de 2013

Continuação do Capítulo I

Quase grito quando Kaique freia bruscamente fazendo quase C na frente da minha casa. Ele gira a chave, deixando-a em off. Desço da moto tirando o capacete o coloco-o no chão. Kaique me lança um meio sorriso e tira o capacete também. 
-Da próxima vez que fazer isso termino com você!-Tento parecer zangada mas não consigo. Esse é o dom de Kaique sobre mim: nunca consigo brigar com ele. Júlia, minha única amiga, considera-nos o casal perfeito. Mas também como poderia ficar zangada com o único garoto que suporta meus desmaios estranhos sem me perguntar nada, ele pensa, como todos pensam, que minha pressão arterial é muito baixa, e que isso provoca esses desmaios repentinos. 
Kaique tem os olhos castanhos mais bonitos que eu já vi, é um pouco bad boy mas no fundo é uma boa pessoa. Tem a mania, por mim considerada idiota, de ir á academia três vezes por semana, o que torna ele um dos garotos mais cobiçados da cidade. E ele ainda perde seu tempo comigo... Não entendo, nem nunca vou entender... 
Ele me puxa e gruda seus olhos castanhos nos meus amarelos. Me puxa para um beijo rápido. Descansa a testa na minha e sussurra: 
-Te amo... 
-Também...-Respondo-Te amo muito... 
-Annie!-Viro-me depressa e vejo minha mãe me gritando da janela_ Já pra dentro! 
-Tô indo!-Grito de volta.-Você vem me pegar amanhã?-Pergunto a Kaique. 
-Claro!-Me beija de novo. Entrego-lhe o capacete aconselhando-o a não correr. 
-Te pego amanhã More!-Ele me chama de More desde que nos conhecemos, dois anos atrás. Liga a moto e vai embora. Entro em casa e subo direto pro quarto. Não tô afim de receber lição de moral da minha mãe. 
-Pensei que você saía da escola meio dia- Não funcionou meu plano de entrar e me trancar no quarto-Onde você estava? São três e meia!
-Num velório-Falo subindo mais um degrau da escada. 
-Porquê não me avisou? Você anda com esse celular pra cima e pra baixo, porquê não usa ele pra fazer algo de útil? 
-Eu esqueci!-Estou começando a ficar irritada. Estou cansada, com fome, tenho que prender um homem que eu mal conheço e um teste de geografia pra amanhã- Você também não me esquece de avisar que não vai dormir em casa? Você não esqueceu de me contar quem é meu pai? Você não esqueceu do meu aniversário? Se eu for dizer tudo que você esqueceu não vamos terminar hoje! E eu preciso de um banho! 
Não gosto de usar essas coisas pra desarmar minha mãe, mas às vezes ela me irrita muito e não consigo me conter. Agora vejo uma sombra de tristeza em seu rosto mas ela não demostra que se arrepende por tudo isso... Aliás acho mesmo que ela nunca se arrependeu por nada nessa vida.
-Precisa mesmo!- Ela diz autoritária- Está fedendo a gasolina! Não quero você com aquele garoto! Muito menos naquela maquina mortífera!
-A Gabrielly não é uma máquina mortífera!-Grito e subo as escadas correndo, enquanto ainda consigo segurar as lágrimas.
 
Me atiro embaixo do chuveiro e deixo a água quente lavar meu corpo e minha alma. Trinta minutos depois já estou sem fome, mais calma e com todos meus livros didáticos espalhados pela cama. Tentando assimilar as eras geológicas que nosso planeta teve. Depois de alguns minutos lendo desisto de estudar. Ai como queria ser apenas uma garota normal que tem como seu maior problema o teste do dia seguinte no primeiro período. Mas eu não sou, nem nunca vou ser normal. E meu maior problema não é o teste do dia seguinte e sim o caso de um irmão que matou o outro. 
Depois de ter falado com Eleonore sabia que não ia conseguir percorrer quase quatro quilômetros a pé até minha casa e resolvi pedir carona a Kaique, que, como sempre, chegou em menos de 10 minutos e me trouxe pra casa. 
Passo a mão em meu cabelo molhado. A margarida. Que pena que perdi... Era muito linda....
Tenho que fazer algo em relação á Léo. Mas como? Não posso simplesmente entrar na delegacia e dizer: ''Oi eu vim fazer uma denúncia. Eu sei que quem matou Eleonore foi seu irmão, Léo. Ah e foi um fantasma que me contou'' Se eu disser isso vou ter que fazer outra visita ao Dr. Otto, aquele homem barrigudo que fuma charutos e que era meu psiquiatra. E isso é a ultima coisa que eu quero fazer. Só de lembrar daqueles remédios cheirando a barata já tenho vontade de vomitar.
 
Tento me concentrar nas próximas trinta páginas que ainda tenho que ler. E, por algumas horas, esqueço que sou uma garota que vê fantasmas e me sinto normal. Apenas alguém que est´pa preocupada com o teste do dia seguinte.

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