quarta-feira, 1 de maio de 2013

Capítulo I


Sei que devia estar em casa como prometi á minha  mãe. Sei que não devia ter andado dois quilômetros de minha sala de aula até um velório. Sei que devia ter aceitado a carona que Kaique me ofereceu. Mas... pensando bem... o que eu devo fazer, estou fazendo. Se tenho esse maldito(ou bendito) dom é por um motivo: pessoas precisam de mim. Bem, pessoas não é exatamente o sujeito dessa oração, mas...
-Boa tarde- falo entrando por uma porta marrom e percebendo a ironia boa tarde, como se a tarde está boa para aquela família.
Me dirijo á Marta, uma mulher no no auge de seus 30 anos, a viúva. Duas crianças estão brincando ao seu lado, sem saber que seu pai está morto.
-Meus pêsames- Falo pegando as mãos de Marta- Ele era um homem bom
Marta está chorando silenciosamente, os olhos vermelhos, fixos no caixão à sua frente.-Marta se quiser que eu fique pra cuidar dos pequenos- Aponto para os dois garotinhos que acabaram de sair da sala rindo e correndo- Posso levá-los lá pra casa...
-Não será necessário-Olho na direção da porta e um homem muito parecido com Eleonore está recostado no batente, atrás dele uma garota da minha idade está segurando um dos gêmeos de Marta- Eu trouxe uma babá.
Marta se levanta depressa e joga os braços em volta do pescoço do homem, repetindo, quase pra si mesmo:
-Que bom que você veio Léo... Que bom que veio...
-Nunca deixaria minha cunhada preferida só num momento desses- Ele a afasta mas permanece com os braços sobre os ombros dela- Ele está lá em cima. Você sabe disso. Não se preocupe. Vai ficar tudo bem...
Achei que o irmão do morto deveria estar mais triste... Léo falava quase sem emoção... Mas Marta pareceu não perceber isto. Ela fungou e recostou a cabeça no peito dele. Por um milésimo de segundo vi naquela mulher de 30 anos uma adolescente.
Um vulto chamou minha atenção para a cozinha. Quando estava indo até lá um espectro me atravessou. O fantasma pálido e cinzento deslizou até Marta e Léo. Tentou puxar o braço de Marta várias vezes, mas sua mão passava por dentro do braço dela como se fosse água.
O espectro de Eleonore agarrara Léo pelo pescoço tentava, sem sucesso, esganá-lo. Frustado, desistiu e saiu passando por dentro de uma parede.
Eu observo tudo isso paralisada. Mas agora preciso encontrar aquele espectro. Toco nas costas de Marta e ela se vira. Lhe estendo os braços e ela me abraça com força.
-Preciso ir- Murmuro no seu ouvido- Como Léo disse, ele vai pro céu.
Pego minha mochila e saio o mais depressa possível. Procuro o fantasma pelo jardim repleto de pessoas vestidas em negro. Não o encontro em lugar nenhum... Peço licença às pessoas que encontro pelo caminho até me que consigo chegar na rua.
Olho pros lados e vejo Eleonore(ou o que restou dele) flutuando rapidamente em direção à um pequeno jardim de margaridas bem cuidadas. Consigo alcançá-lo quando ele para tentando colher uma das flores. Me aproximo devagar.
-Eleonore...-Falo baixinho, ele se vira e, mesmo pálido e cinzento, como se tivesse tomado um banho de cinzas, Eleonore ainda é bonito- Porque você queria estrangular seu irmão?
Ele levanta as mãos e recua. Uma margarida fica atravessada na altura de seu umbigo. Ele tenta tirá-la de lá com as mãos. Não conseguindo, flutua para o lado. Sempre achei esquisito o jeito como os fantasmas se locomovem... eles não andam com os pés no chão, apenas flutuam, como se a gravidade não existisse.

-Me diga, Eleonore-Insisto-Só me diga sim ou não. Foi Léo quem lhe matou?
-Sim...-Um múrmurio escapa dos lábios dele. Os espectros não conseguem formar frases completas com coerencia, não é nada do que vemos nos filmes. E isso dificulta um pouco minha missão de ajudá-los- Léo..
-Ele vai pagar. Te prometo.
-Prometer...- Murmura novamente o espectro com as feiçoes mais tranquilas agora.
-Prometo. Continue seu caminho Eleonore.
-O-obrigado- Ele tremula como uma cortina ao vento e começa a ficar transparente. Segundos depois estou sozinha no canteiro de margaridas.
Retiro uma delas e prendo atrás da orelha direita. Prefiro rosas, mas essas servem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário